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Berrografias – Roselene Queiroz

Roselene Queiroz define si mesma como uma pessoa alegre, contente e carinhosa. “Não digo que não tenho problemas, todos têm, só que o problema do serviço é aqui e os de casa são em casa.”, diz Rose, como é chamada por seus colegas de trabalho.

Quem vê o sorriso estampado em seu rosto vinte quatro horas por dia não imagina como foi dura a sua jornada.

Rose nasceu em 1973 no distrito paulistano de Itaquera. Quem hoje vê prédios, estações de trem e a Arena Corinthians, não imagina que há 40 anos não havia praticamente nada na região que não fosse sua vegetação nativa. Nas palavras de Rose: “Só tinha mato”.

Primogênita de seis irmãos, com pouco menos de treze anos ajudava sua mãe, Sueli, que não contava com a presença do marido que a havia deixado sozinha com os filhos. Trabalhava na roça, cozinhava na lenha, era praticamente uma segunda mãe para seus irmãos. Apesar das dificuldades, a vida em Itaquera era feliz.

 

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Anos mais tarde Sueli decidiu se mudar para uma cidade próxima, Suzano, em busca de melhores oportunidades. Por indicação de amigos e familiares, decidiram se assentar no bairro Miguel Badra, na periferia do município, e foi ai que as coisas começaram a piorar.

Cortado pelo rio Tietê, Miguel Badra fora uma chácara pertencente a um dono de mesmo nome, onde se plantava laranja, pêra e maçã. Com a expansão do cinturão verde para outros horizontes, a região foi abandonada e, anos mais tarde, tomada por trabalhadores provenientes de Minas Gerais, Nordeste e São Paulo capital, como foi o caso da família de Rosilene.

 

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Com o repentino aumento demográfico da região, a prefeitura de Suzano foi incapaz de fornecer infraestrutura básica para a população emergente que passara a habitar a região. Por conta disso, as famílias sofriam com as cheias do rio Tietê e seus alagamentos, frequentes nas épocas de chuva.

Rose lembra de sua estada em Suzano como uma das épocas mais tristes de sua vida. Quando chovia, sua casa era castigada pelas águas que a inundavam completamente. O escoamento levava mais de uma semana, deixando sua família desabrigada.

No início, os parentes de Sueli aceitavam abrigar sua família, porém, com a regularidade com que aconteciam as inundações, os mesmo passaram a recusar ajuda, deixando-os desalojados.

Após um período vivendo em Mogi das Cruzes sua mãe conseguiu um emprego como varredora de rua da cidade, o que reacendeu as esperanças da família na busca por melhores condições de vida. Ao longo dos anos de trabalho Sueli conseguiu acumular um pouco de dinheiro e comprou um terreno no bairro Jardim Santa Tereza, localizado no subúrbio de Mogi das Cruzes. Sem hesitar, mudou-se com seus seis filhos para Mogi. Com lágrimas nos olhos, Rosilene se recorda desse dia como se fosse hoje.

A família chegou ao local sem nada, somente com as roupas do corpo, sequer havia uma casa no terreno. Sensibilizados, os moradores locais se reuniram e em apenas um dia montaram um barraco para abrigar Rose, sua mãe e seus cinco irmãos.

A vida na comunidade era harmoniosa, os moradores eram solícitos e ajudavam uns aos outros no que fosse preciso.

Passados 8 meses vivendo em Santa Tereza, a vida de Rose passou por um triz de ser ceifada.

Certo dia, ela foi trocar seu botijão de gás e, ao desabrochar a ligação entre a mangueira e o fogão, ela realizou uma manobra errada e de repente o gás começou a vazar. Em poucos segundos uma faísca fez com que o vazamento se tornasse uma grande labareda de fogo! Se nada fosse feito, a chama entraria para dentro do botijão e explodiria toda sua casa. Ouvindo a gritaria, alguns vizinhos rapidamente entraram na residência e, com uma inchada, cortaram a mangueira sem pensar, fazendo o botijão rolar morro abaixo. Quando ele estava prestes a explodir, outros moradores vieram e apagaram as chamas com o auxílio do extintor, salvando a vida de todos que estavam no entorno. Naquele dia, Rose aprendera uma grande lição que a marcaria para o resto de sua vida: a solidariedade, uma marca que ficou registrada em seu caráter. Rose é uma pessoa que tira de si mesma para ajudar ao próximo, um traço de sua personalidade que muitas vezes a fere quando não é correspondido.

Passados 2 anos em Mogi, a empresa em que sua mãe trabalhava faliu e, com isso, ela ficou desempregada. Algum tempo depois, ela conseguiu um emprego trabalhando como cozinheira e faxineira, porém sua renda se reduziu, fazendo com que Rose precisasse procurar um emprego, já que era a filha mais velha.

Acostumada a cozinhar desde muito pequena, Rose conseguiu seu primeiro emprego como cozinheira em um restaurante chamado Antunes, localizado no centro de Mogi das Cruzes. O trabalho era duro, porém gratificante, ela se lembra de seu antigo patrão e proprietário do estabelecimento com muito carinho.

No entanto, Rose não recebia seu pagamento, era Sueli quem vinha retirar seu salário todos os meses, um acordo que havia sido formalizado entre as duas e o chefe. Ela brinca dizendo: “Onde já se viu! Hoje em dia os filhos não aceitariam uma coisas dessas.”

Após algum tempo de trabalho, com pena de Rose, seu patrão passou a fazer o pagamento diretamente a ela, em diversas parcelas para que Sueli não percebesse. Quando sua mãe vinha recolher o salário, não havia quase nada.

Foi nesse período que ela começou a se tornar independente e realizar as próprias conquistas. Sueli percebeu o que ocorria e sem falar nada decidiu não buscar mais os pagamentos. Rose então pensou que ela mesma deveria contribuir com sua mãe e passou a também ajudar nas despesas da casa.

Desde muito pequena Rose carregou o fardo da responsabilidade familiar em suas costas, ajudando a criar seus cinco irmãos. Infelizmente não se pode dizer o mesmo de seus familiares que acabaram optando por escolhas erradas em suas vidas. Ela sofre dizendo não se sentir parte da família, afirmando que é a única “direita” e que os demais são “tortos”. No entanto, não hesita em ajudar quando é necessário: quando há um problema é ela quem se propõe a resolver.

O restaurante O Berro, na época chamado de Berro D´agua se encontrava em meio ao trajeto em que Rose fazia para chegar ao trabalho, nunca imaginava que um dia viria a trabalhar ali.

Após um anos e oito meses trabalhando no restaurante Antunes, este veio a encerrar suas atividades e Rosilene ficou sem emprego.

O Berro estava crescendo a uma grande velocidade e precisava contratar mais funcionários. Apesar de ser cozinheira, Rose aceitou a indicação de um colega e ingressou no restaurante em 1993 como atendente e nunca mais saiu de lá. Está no Berro a vinte e dois anos e hoje já ocupa um dos cargos mais importantes da empresa, como líder da área de delivery.

Quando cursava o ensino médio Rosilene conheceu José e foram amigos por muito tempo. A amizade virou amor e com vinte anos de idade os dois foram morar juntos. Assim como quando veio para Mogi se mudou para a casa nova apenas com a roupa do corpo e uma mala, no começo eles dividiam uma cama de solteiro e ela guardava suas roupas em uma caixa de papelão. Rose diz: “Tá vendo como minha família é doida?!” Não demorou muito para a união se formalizar e se casarem no civil. Hoje o casal tem dois filhos, William o mais velho de vinte e um anos e Tifany, a caçula, com doze.

Rose viveu e vive dias felizes no Berro. Ao ser questionada sobre os momentos tristes na empresa ela responde: “Triste? Não tem nada triste, aqui tudo foi feliz!”.

Ela afirma que tudo que conquistou foi O Berro que deu a ela. A casa própria com dois banheiros, televisores em todos os cômodos, a mobília, carro próprio, tudo com muito esforço e dedicação. “Tudo mudou da água para o vinho”, como ela mesma afirma.

Roselene é a antítese do mal humor. Sempre com um sorriso, ela é capaz de animar a qualquer um brincando e fazendo piadas, é impossível ficarmos bravos com ela!

Uma mulher com um enorme coração que merece nosso respeito.

o berro-equipe

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Comentários

2 comentários

  • 22 de February de 2016

    História linda!

  • 23 de February de 2016

    Que linda história dessa grande guerreira! Sempre a admirei e adoro ser servida por ela que, sabe de cor todos os nossos gostos. Os meus filhos a adoram e mandam um recado: “Rose, você merece ser muito feliz!”

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